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O Alpendre da Calçada

É.

O lápis cravou-se na tela, e não saiu daquele furo durante longos meses. De um momento para o outro, ele já não era capaz de delinear os amigos, as pessoas que ama. Insistia em dar-lhes uma forma, mas nenhuma lhes cabia. Acusou, estrebuchou, pensou, meditou, apontou, cansou, e mais uma série de ous, até chegar ao mais importante... 


Só quando libertou

A necessidade de traçar

Aí recomeçou, e deu-se a pintar:

 

Apontamos o dedo ao amigo

Porque afinal era inimigo

Generalizamos-lhe o joio e o trigo

Como um cereal de tipo indefinido 

​

Maldade circunstancial e bondade situacional

Estanques e elevadas no teatro astral

 

No palco principal,

Solilóquio carnal

De um corpo em vão

Atuando sem guião

 

Cegado e destruído

Folheia páginas invisíveis

Pelas estruturas inalteráveis

Da inquestionável razão

 

Ó definição!

Encontrai-me pois estou perdido

​

No desapreço por todo o sentido

Arrefeço qualquer ouvido

Esmurraço até partido

Lanço cuspo mentido

Desvaneço ao ver perigo

Sou palhaço em vez de ter morrido

Assim, quem me quererá envolvido?

 

Ó definição!

Dai-me as vossas estruturas

Essas encaminhantes seguras

Doces qualificações maduras

 

Ó definição!

Estruturai-vos em mim, pois já não tenho bases

 

Nos bastidores,

Juízes, vítimas, familiares,

Advogados, culpados e assessores.

Decisores qualificadores,

Serão traidores ou benfeitores?

 

Convencedores vencedores das dores

 

Baralham-se os papéis e as falas,

Vestem-se robes, leis e palas

Calçam-se anéis e feridas amargas

Alinham-se os fiéis no monta-cargas

 

E sobem,

 

Sobem sem saber para onde vão

Munidos de qualificações atrapalhadas

Cicatrizados pelas guerras travadas,

Urge a batalha pela definição!

​

Desenho, deslizo, travo e o piso

Desgaste inglório do conflito conciso

Partem-se bicos e mãos,

Até a cabeça do amigo

 

O amigo,

Que afinal era juiz

Que afinal era vítima

Que afinal era traidor

Que afinal era família

Que afinal era advogado, culpado e assessor

Que no final cedemos ao estanque desamor

 

Minimizou-se e destruiu-se o seu todo

Bondade segura, estanque no lodo

Maldade à temperatura ambiente do iodo

Ergueu-se o amigo sob esta moral de fogo

​

Ah que insulto este!

O de qualificar a pessoa amada

O de beijar apenas a pele não queimada

O de a afagar com pena desalmada  

 

Vulgar amor parcial

 

Ai de mim, ser uma pessoa apenas boa

Ai de ti, que me consideres apenas mau

​

Ama da cabeça ao pé

Pois a pessoa simplesmente é. 

Maria_Gi_Ilustração_É.jpeg

Por Vasco M. Baroseiro
Ilustração: Maria Giraldes

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