
Instrumentos a solo
Instrumentos a solo
Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles
Por Vasco M. Baroseiro
Ilustração: Benedita Meireles
Por Vasco M. Baroseiro
Ilustração: Benedita Meireles
A lua dominava os céus, os prédios eram abraçados pelo nevoeiro e aparados pela calçada húmida. O cheiro a alcatrão mofado e a orquestra de pneus a zarpar pela estrada misturavam-se na máscara tranquila que a cidade coloca durante a noite. Entre o sinal vermelho e a travagem brusca, uma buzinadela atravessou-se pela janela de Armindo Correia, rebentando com o seu sono frouxo.
“Vamos lá ver se é desta que o senhor ganha!”
O abre-olhos apressado e a consciência a apontar para desnorte tomaram conta do seu peito flácido. Não reconhecia o cobertor axadrezado que o enrolava nem a poltrona elétrica que o reclinava. Expirou com urgência e encarou a estante de livros poeirentos à sua frente com desafio e preparo. Ao examinar a sala, deparou-se com um copo com água na mesa à sua direita. Empunhou-o com força, trouxe-o à boca, fechou os olhos e deglutiu a poção mágica que, por momentos, levantou aquele peso mortífero do seu peito.
Ao abrir os olhos, Armindo inspirou subitamente. De olhos escancarados e fixos nas suas mãos, não reconhecia aqueles membros como seus. Reconhecia a cicatriz profunda que carregava na palma da sua mão direita. Mas não reconhecia as ribeiras de sangue roxo que percorriam aquela pele rugosa e que desaguavam naqueles dedos frágeis. Reconhecia a luz verde do sensor fisiológico que piscava no seu pulso esquerdo. Mas não reconhecia as linhas difusas daquelas palmas, nem a mancha escura de sangue pisado no dedo indicador. Reconhecia os dois sinais leves que se pontilhavam na sua pele, por debaixo dos dedos do meio e mindinho da mão esquerda. Mas jurava ter uma aliança dourada no anelar!
“Parabéns! O prémio é seu!” aplaudiu-se na sala. “Como se isto fosse prémio algum…” Armindo rosnou. “E agora, já sabe o que vai fazer com ele?”
Armindo firmou os olhos naquele retângulo negro por onde desconhecidos invadiam a sua sala diariamente e sequestravam a sua consciência em troca de “companhia”. Inclinou a sua poltrona cinzenta, afundou os pés descalços no chão e levantou-se com todas as suas forças. O zumbido citadino, pautado pelas palmas desalmadas das gentes desconhecidas, ecoava em cada canto da sala. Num respirar controlado, trancou o maxilar, avançou a sua perna esquerda, puxou o seu copo atrás e arremessou-o à televisão.
A orquestra citadina tocou uma caesura.
“Que se juntem os trapos e se lavem as colheres! Que se beijem as pratas e se abracem as mulheres! Nunca vos implorei nada. Ainda menos pedir-vos o prémio que fosse. Fiz o que tinha de fazer, amei quem tinha a amar, afastei quem me queria magoar, mas também afaguei quem estava a desesperar. E ainda olham para mim com essa cara impávida e sedada? Pois bem, saibam que não vale a pena tamanho estupor… daqui saímos todos tão toscos quanto chegamos.”
Armindo baixou os braços e expirou. “Talvez tenha sido desta que esta gente se convenceu” murmurou ao sentar-se novamente na sua poltrona. Pousou os seus pés entre estilhaços de vidro e plástico preto, sorriu para o teto amarelo centeio, inspirou calmamente, fechou os olhos e regressou ao seu sono apneico.
Ao acordar, já o sol se atravessava pelas cortinas verticais da sala. “Bom dia pai…” cumprimentou Alexandre Correia, curvado sobre o chão. Pousou a pá e a vassoura e dirigiu-se ao pai para lhe beijar a cabeça pelada. Armindo tapou a cara e aliviou-se numa expiração pesada.
“Filho.”
Lá fora, entre aviões esporádicos e dilacerantes, risos humorados e discussões rítmicas, a orquestra citadina tocava novamente com vigor.