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O cordel e a estrela do mar
O cordel e a estrela do mar
Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles
Virou a barca! Mais uma vez?? Não era desta vez que seria a vez? Pois claro, é sempre a mesma coisa.
– O problema está na barca – disse Albano perentoriamente. – Mas qual quê, o problema está nesse marinheiro maltrapido! – Maltrapido és tu, pensou Albano de forma instintiva, e ainda antes de vociferar, foi, pois, que uma coisa curiosa aconteceu. Ergueu a sobrancelha – Por mim era borda fora! – ao fixar o olhar enquanto navegava por imagens sucessivas de um cordel que se ia aproximando de si, aparecia hirto de um remoto túnel de margens brancas e abria-se como uma estrela do mar antes de lhe chegar perto do nariz, para depois afastar-se e desaparecer pelo núcleo do mesmo túnel. Ia e vinha com cada vez mais intensidade, enrolando-se em si nos momentos de transição, apresentava-se sozinho sem que a solitude lhe pertencesse – Oi! estás a ouvir? já fizemos o suficiente, Albano, juro que estou farto, eu tentei, juro que tentei..., mas quer dizer... já não sei a quantas andamos e é sempre a mesma coisa, ele vira sempre a porcaria da barca! – Albano continuava com a sobrancelha erguida, detalhes mais ricos do tropel imaginário apareciam-lhe. Captou, com dúbia acuidade, que a estrela do mar ao recolher era de novo envolta pelo cordel para se transformar totalmente num e desaparecer serpenteando pelo túnel.
– Alguma coisa estamos a fazer mal, disse calmamente Albano. – Isso é de loucos! É de loucos Albano, estás louco, não, não, tu és louco, ouve, isso nem sequer é racional, devemos prestar contas a quem devemos, assumimos e passamos para outra barca!
Alguma coisa estamos a fazer mal, emboscou de novo esta vaga sensação. – Vergílio, ficamos mais um pouco, peço-te isto – Vergílio gritou de raiva, um vermelho intenso espalhou-se por toda a extensão matizando-se num negro azul que se arrumou numa concha fechada sobre si mesma ao acoplar-se aos pés de Albano, imobilizando-o.
O marinheiro acordou mais cedo do que o habitual, ouvia o corpo a crepitar, e apressadamente tentou dirigiu-se à barca. Avistou-a de longe, e a ir no seu encalço o horizonte sempre se distava, olhou em redor, as árvores estavam precisamente no mesmo sítio, olhou para os pés, estes batiam no chão de forma ritmada e os pedações de relva sucediam-se uns aos outros, olhou de novo para as árvores e estas não se tinham movido um milímetro em relação ao seu corpo. Constatou, inerte, que a paisagem se encontrava absolutamente estacionada, apesar de os seus pés se moverem rapidamente, um grito vindo das entranhas explodiu-lhe no peito e subitamente sentiu-se suspenso num vazio. A sua alma fora marcada. Mas antes de dar voz ao grito concentrou-se, não tinha a certeza de sentir as pernas, formigas pressionavam-nas e subiam-lhe pelas costas, parou, exasperou, mas. Logo de seguida, acionando escudos de sobrevivência, formou num instante a hipótese de estar a ser enganado pelos sentidos. Com certeza alguma neblina tinha-se instalado, talvez estivesse com problemas de visão, será? seria? tinha de ser. Nervosamente, neste lapso de tempo, esforçou-se por acreditar em qualquer hipótese fiel à banalidade do mundo. Nunca tinha desejado tanto chegar à barca.
Albano exasperou simultaneamente, sacudiu o pé veementemente para tentar desacoplar a concha, sem demoras puxou-a em frenesim, mas ela, a concha, permanecia imóvel, como se se tivesse retirado deste espaço de existência. – Não o podemos deixar assim, por favor Vergílio, aarrrr! O marinheiro, o ma rin e o nheiro heiro, o diheir e o ihe e o mei oud, enheiro, e olhou em volta, de volta por volta, na volta, contorceu-se e atirou-se para o chão, que se fendeu e sugou-o, no turbilhão rodopiado foi baralhado e trespassado por um conjunto de cartas afiadas que em cada bicada levavam consigo um fragmento minúsculo do seu corpo, atabalhoado, foi e oif e oif aveldo alhabrado, estampou-se, finalmente, contra uma concha que lhe picava os pés e vislumbrou uma cara minúscula de grandes olhos abertos, a barca veio à tona e aproximava-se em ziguezagues, num zig saiu disparado um cordel que lhe esbofeteou de uma assentada a cara, e num zag uma estrela do mar abraçou-o levando-o com ela, levou-o, levou-o, e o abraço foi se tornando cada vez mais forte, subiu pelo corpo e espremeu-lhe o pescoço, e levou-o, levou-o para fundo, e um cordel bateu-lhe de novo na cara, e o einho e o i eo mar e o marinheiro, o marinheiro! através de um último ímpeto, suspirou fortemente e num golpe desfez-se da estrela do mar, que agora subia, subia e lhe puxava para cima, sorria e fazia-lhe cócegas. Enfrentando-a tentou desenhá-la. A sua mão ganhou autonomia própria enquanto desenhava os seus próprios pés, os do marinheiro, o marinheiro! – Ele viu, ele viu! – aplaudiu o auditório dos entes responsáveis pelas barcas humanas.
O marinheiro levantou-se, hirto, e apressadamente confiante, chegou à barca, pôs-se na barca, e olhou pela primeira vez para o cordel. Este baloiçava na água e tinha sido estranhamente esquecido, um detalhe que impunha a ditadura do movimento repetido atrofiando uma ordem expansionista. É que, antes desta primeira vez, o marinheiro saía da sua cabana ia para a sua barca e a barca virava, saía da cabana ia para a barca e a barca virava, da cabana e a barca virava, e outra, outra vez, todos os dias e os dias, não passava da beira mar, da beira mar, não era motivo de chacota porque os poucos visitantes daquela praia não percebiam bem o que se estava a passar, com certeza que devia estar a arranjar a barca, ou então a testá-la, há quem dissesse que era assim divertido o marinheiro, gostava de mergulhar com a barca, mas o marinheiro ainda que soubesse o que não queria! Passava pelo cordel e quase o desprezava, sem disso se dar conta, uma vez que o ignorava. De uma coisa sabia, não passar da beira mar irritava-o profundamente, de tão longínqua era a irritação que a sua fonte lhe fugia, e era hoje, sim, era hoje, que ia arranjar o problema, que se ia ou ia-se, vai da mesma coisa, pois era hoje que, enfim, debruçar sobre a temática, era hoje que ia sair, mas a barca continuava a virar e ele saía frustrado, chapinhava na água, e voltava para a sua cabana, e voltava, eram tantas as vezes que essa vez tornou-se uma só vez, e quando lhe perguntavam, o marinheiro tem esta barca há quanto tempo? Bom, há algum, mas com certeza que não há muito, ... não podia ser assim há tanto tempo..., mas desta vez olhou frontalmente para o cordel. Pela primeira vez permitiu-se e simplesmente, como de quem ao triunfar livra-se de um peso anónimo, desatou o cordel, e a barca não virou.
O marinheiro a meio do seu dia, ainda ergueu a sobrancelha, e perscrutou qualquer coisa dentro de si, mas rapidamente tornou-se de novo para o remo. Desta vez remou, a sua primeira vez, a ode marítima anunciava os seus preparativos, indo logo contra uma bravíssima onda como um touro enraivecido, e a barca partiu-se. Riu-se de exaltação e decidiu livre e sem arrependimentos que não queria ser mais marinheiro. Mas porque raio queria o marinheiro ter sido marinheiro? Bom, isso já não é comigo, mas com o caro leitor. E já que nos cumprimentamos despeço-me do Albano e do Vergílio que se esfumaçaram e foram prestar contas a quem deviam – o auditório bateu-lhes palmas irónicas, e riu-se da abstrusidade simples de que é composto o sopro da complexa navegação humana.
Albano e Vergílio foram indigitados para um velho novo caso, um homem que não conseguia fazer um castelo de cartas.
Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles
Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles
Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles

Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles
