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O Alpendre da Calçada

O Alpendre da Calçada

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Lá vai bisneto pelas escadas abaixo

Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles

Lá vai bisneto pelas escadas abaixo

Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles

Não é que interesse muito, mas na semana passada estatelei-me. Nas escadas.

Conclusão: momentos antes, esfregonas por ali tinham passado. Foi daquelas manhãs em que está destinado confundir-se a bota com a Carlota e pôr-se a Carlota na bota, não era perdigota?, talvez mais por força da falta de vontade humana do que por ares divinos, é que acordei sobressaltado, ah coitadinho, então o que se passa consigo? Não é isso, é que acordei sobressaltado porque já sabia que estava atrasado – coisa rara essa, acordar já sabendo que se está atrasado, ou não me diga que cometeu o erro infantil de pôr-se com ares de beiçudo depois do alarme, é que essa é mesmo erro de principiante – ora, é verdade, cometi esse erro, mas mesmo que não tivesse cometido, não é coisa rara acordar-se já sabendo que se está atrasado, aliás das mais das vezes é precisamente isso que acontece, a pessoa já sabe que está atrasada, é como por magia.. – magia não, o que se passa é que mesmo a dormir somos conscientes, essa é que é essa, essa vozinha que às vezes grita e que outras se põe a contar bananas como se não tivesse nada consigo, sabe tudo, essa malandra – ora, como queira, mas deixe-me lá contar o que aconteceu– sim,sim, – Acordei sobressaltado, agi freneticamente em compasso nervoso para agregar todos os utensílios necessários para poder sair de casa, mas é daquelas manhãs que corre tudo mal, chaves não sabia, carteira e afins, e depois aqueles detalhes importantes para um dia de trabalho, como o cantil, a caneta para o quadro, enfim todas essas coisas que nos fazem sentir um Batman na hora de entrar no trabalho, ttaaannttaaaram, cá vou eu, ora que a um adulto não lhe venha a imagem do Batman quando entra pela porta do trabalho isso percebo eu, mas na verdade é o que desconfio que ele está a sentir. Quando percebi isso em miúdo, ficava por vezes de manhã no portão do colégio a fazer uma espera à modo autista ao Senhor Diretor, e lá vinha ele, de fato de Batman a andar como se fosse o Barack Obama, menos cool e mais reto, e eu limitava-me a observá-lo; o que tinha piada não era o facto dele estar vestido à super-herói, mas a sua crença convicta de saber quem era, bem-bom, mas fazer troça de professores e Directores é coisa fácil e banal, estava eu a dizer – mas espere, coisa simplista achar que toda a gente se sente o Batman na hora de entrar para o trabalho, é precisamente o contrário! – há pelo menos um Batman em cada grupo de trabalho! ou há pelo menos um dia na sua vida que se sentiu o Batman a ir para o trabalho e não sabia! essa a mim não me tira, devo dizer que substitui o hábito de esperar pelo Senhor Director pelo hábito de tentar identificar o Batman da rua, mas não é o Batman moral, não me entenda mal, é o Batman bombeiro!– Assim estava eu, já em modos bombeiristas, que pelo facto do elevador demorar mais um microssegundo do que o meu entendido suposto, decidi, de forma racional, dado poder controlar através dos meus passos a velocidade de descida, ir pelas escadas. Assim que dou o terceiro passo apressado na escadaria, splash, babum, estatelo-me. Fico imóvel por uns segundos, e deixo-me ficar, penso em desistir de tudo, senti ali, de barriga para o ar e o corpo meio contorcido, o maior momento de paz durante a repetida semana atarefada. É pois, precisamente no momento em que já me estou a deixar almofadar por esta brilhante ideia de desistir de tudo que oiço uma voz em tons alarmistas “Alguém se magoou??, está tudo bem??”, resignado, puxado por obrigações sociais, solto um “Sim, está tudo bem, não se preocupe”. De uma assentada ponho-me de pé e continuo no trote anterior. Com cuidados suplementares desço a escadaria até ao patamar onde iria desembarcar o suposto elevador, ao qual aparece, Albano, de facto parecia meu gémeo! sorri para mim e passa-me à frente com elegância, tranquilo da vida, cá eu, assim que a rua se abre para mim, surge a missão seguinte “Onde raio estacionei o carro?”, Sorte a minha, estava mesmo à minha frente. Chego 20 minutos atrasado, é deveras muito tempo para quem deve ser o Batman. “Um Professor chegar atrasado não é 20 minutos, é 120 minutos!” solta um pirralho lá do fundo da sala. Fingi que não ouvi, mal sabia ele que momentos atrás tinha protagonizado uma cena cinematográfica. Escrevi no quadro – lição número 120 – e sem misericórdias, oiço logo de seguida “Hoje é a lição número 120 Professor?”.............. “É um número simbólico” atirei, “faz este ano 120 anos que o Benfica foi fundado”, fui por obra do acaso sequencial, obrigado, para dar coerência ao meu lapso, a dar a aula em volta deste tema, e assim, como quem não quer a coisa, fiz o mais dos esforços para dar a um clube futebolístico densidade intelectual. Lembrei-me desde logo da Itália fascista, e no final de tudo, já havia quem dissesse “Afinal, apoiar o Benfica é uma espécie de banalidade da corrupção”. No dia seguinte, sou interpelado pelo Senhor Director, que diga-se de passagem, estava com ar de Batman, “O senhor Professor tem reunião marcada com um encarregado de educação”, por meu azar, um dos pais dos meus alunos era Bisneto de um dos fundadores do Benfica, fazia daquilo o seu porte dignitário, uma causa tradicional, abalar as fundações Benfiquistas era atirar pedras ao seu casamento, veio-me então pedir explicações. Por honestidade intelectual, há uma parte de mim que pensa de forma convicta que é mesmo assim, há uma banalidade dos instintos mais básicos do ser humano espelhados no futebol, e isso é por de mais evidente, agora, a dificuldade era explicar ao Pai que às vezes quando um ser humano se estatela nas escadas pela manhã há outro que discute com a mulher ao cair da noite, e não é por maldade, é uma questão de organismo, até podia ser ao contrário, que o bisneto tivesse acabado a comprar flores, mas se assim fosse, ninguém sabê-lo-ia.

Por Frederico Lubomirski
Ilustração: Benedita Meireles

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